sábado, 21 de setembro de 2013

Primeiro capítulo de Flor de Lótus




Leia o primeiro capítulo de Flor de Lótus, livro da autora Bia Braz que será lançado pela Editora Lio dia 07 de outubro



1.       Capítulo Bolos & Investigações


Quando sua realidade muda, seus sonhos não precisam mudar.Johnnie Walker

A sala de reuniões do Departamento Antidrogas do Governo Americano - DEA, em Los Angeles, mantinha um clima tenso na reunião pós-operação. O chefe da unidade andava de um lado ao outro, sob o olhar atento de seus subordinados, com um cupcake na mão enquanto era feito o relatório da operação.
Longos e exaustivos dias de investigação antecederam a operação que envolvia o flagrante de narcotraficantes. Uma combinação tática com ações pontuais e cirúrgicas foi minuciosamente arquitetada, onde pistas recebidas por informantes foram estudadas e decodificadas, direcionando-os a ocupar pontos estratégicos no local onde supostamente ocorreria a negociação e distribuição de um grande carregamento de cocaína.
Entretanto, a operação foi um fiasco.
Os agentes participantes ouviam o relator receosos. Ao se tratar de casos em que se suspeitava do envolvimento do bioquímico Aleksey Mattel, o Agente Especial Christopher Pemberton Adams, chefe da unidade, normalmente imparcial e distante, transformava-se significativamente. Fúria velada e frustração eram claras no seu semblante.
‒ Não posso crer que todos esses meses de investigação nos levaram a isso ‒ apertou o cupcake na palma. ‒ Bolos. Bolos de laranja ‒ fez uma careta inconformado. ‒ Fomos manipulados, só há essa explicação ‒ juntou o pacote de bolo aos outros sobre a mesa e suspirou, controlando-se. ‒ Sabemos o que um caso desses significa ‒ ressentiu-se, internamente, deparando-se com o cunho pessoal do caso.
É Alek quem me traz cocaína” podia ouvir novamente Christine repetir no fundo de sua mente.
Christopher esfregou a testa ansioso. Não era sensato permitir que os presentes suspeitassem de seus motivos. ‒ Significa tirar as drogas das ruas, livrar adolescentes de vícios, diminuir a violência ‒ discursou meramente retórico enquanto gesticulava com as mãos no ar, controlando, sob a máscara de frieza e indiferença, a amargura e a dor que a lembrança de Christine despertou.
Do outro lado da sala, dois integrantes da equipe de Inteligência cochichavam entre si, um deles pondo em questionamento os motivos do chefe.
‒ O Agente Especial Adams deve ter um caso mal resolvido com o bioquímico, um caso de amor ‒ zombou baixinho o agente Matthew.
‒ Penso que ele foi traído ‒ acrescentou com escárnio o agente Joshua.
‒ Os agentes Matthew e Joshua podem compartilhar conosco o assunto que os diverte? ‒ Christopher sugeriu austero, os braços cruzados no peito, exalando intolerância e mau humor.
Ethan, agente recém-formado integrante da Inteligência, aproveitou a interrupção e manifestou-se discretamente.
‒ Chefe, o senhor teria um tempo para mim?
Christopher estudou o nerd de óculos por segundos, suspeitando que o assunto devia tratar-se de informação obtida ilegalmente.
‒ Dispensados, senhores ‒ avisou aos restantes, esperando que deixassem a sala. 
Ethan começou a falar ao estarem completamente a sós.
‒ Eu consegui pegar algo suspeito em uma gravação ‒ expôs, inseguro de como seria recepcionada a informação. O chefe costumava ser Caxias no que se referia a escutas ilícitas em outros casos. ‒ Um telefonema de uma das meninas de Aleksey ‒ explicou, pegou o chip em sua mochila e entregou-o a ele. Christopher deu um meio sorriso a Ethan.
‒ Vejamos ‒ sentou-se em frente a um computador e ligou as caixas de som da sala de reunião. O som da conversa eclodiu no ambiente.
“... Florzinha, eu já disse para não ligar desse telefone”.
Christopher fechou a mão em punho ao ouvir a voz de Aleksey. Automaticamente lembrou-se de como ele gostava de apelidar pessoas com nomes de flores. Christine apelidou de Crisântemo. Sua mãe, Lisandra Pemberton Adams, de Líria.
Eu precisava de alguns itens” disse uma voz de adolescente em tom rouco e arrastado. “Perto da casa do Daniel tem um mercado grande. Ele pode ir comigo” propôs animada.
Não. Você sabe que eu não quero que fique por aqueles lados. Do que você precisa, Rebecca?”
“Açúcar, farinha de trigo especial. Acho que uns cinco quilos de cada. Também preciso de laranjas, maçãs, embalagens de plástico”.
Christopher examinou a proposição, encarou Ethan e entrecerrou os olhos com desconfiança. Açúcar e farinha de trigo no submundo do crime era gíria que se referia à cocaína. Christopher inclinou-se com as duas mãos na mesa e continuou a sondar a conversa.
Também quero um pouco de fermento”.
Um golpe com o punho no ar foi dado por Christopher, triunfante. Se alguém dentro da casa do bioquímico ligou pedindo o que supostamente era solvente, a droga era modificada dentro de sua propriedade, deduziu.
Só isso?” Aleksey gracejou.
Não” ela sorriu. “Por isso eu queria ir. Tem muita coisa para comprar. Mas vou fazer a lista e te mandar por mensagem”.
Tudo bem. Algo mais?”
Carol manda um beijo” disse mais baixo. “Ela tá com saudade”.
Fala para ela não fazer drama. Passei o dia todo a menos de cem metros daí” retrucou brincalhão.
Mas você não entrou em casa” reclamou carinhosamente.
Vou tentar passar aí mais tarde e pegar vocês acordadas”.
Fez-se uma pausa.
Alek...”
“Hummm”.
“Eu também estou com saudade de passar um tempo com você” cobrou manhosa. Aleksey suspirou.
Eu sinto falta de vocês, mas eu preciso trabalhar... Agora tenho que ir. No fim de semana vou arrumar um tempo e levar vocês a uma matinê para dançar” prometeu, impaciente.
Alek, não queremos ir a uma matinê” negou decidida. “Queremos dançar numa festa de adultos”.
Quando vocês forem adultas, pode ser que eu leve. Em primeiro lugar, vocês nem podem entrar em uma casa de festa”.
“Na boate que você é sócio a gente pode” sugeriu obstinada.
Flor...” Aleksey a censurou.
“Tá, Alek” desanimou-se. “Eu já cresci. É injusto. Para um monte de coisa eu tenho que ser adulta, para o que eu quero, não” argumentou.
Os homens da sala ouviam atentos a discussão. Há alguns dias sondavam a movimentação externa da casa de Aleksey Mattel e viam sair, vez ou outra, um Audi cupê rosa ou um Lótus Elise lilás. Vidros espelhados e óculos de sol impediam identificar os perfis. High School Beverly Hills e Beverly Hills Junior eram seus destinos. Supostamente tinham entre quatorze e dezessete anos e eram tratadas no submundo do crime pelo codinome meninas do Aleksey, o que impunha respeito e proteção, segundo boatos. Christopher não duvidava de que, além de todas as suspeitas, Aleksey também abusasse de adolescentes. Recordava que, quando Aleksey começou a ficar com Christine, ela não tinha quatorze anos completos.
Tudo bem. Quinta-feira vou pedir que Roney leve você e Carol à Sky. Mas vocês só ficarão de onze até uma da manhã” condicionou claramente insatisfeito.
Obrigada, Alek!” ouviu-se sons de palmas e gritinhos animados do outro lado da linha. “Yeah! Uhuu!”
Mas e o Peter, Rebecca?” Aleksey lembrou preocupado.
Eu o deixo com Olga. Ele não vai sentir minha falta. Coloco-o para dormir antes”.
Como ele está?” perguntou chateado.
Também sente sua falta... Hoje ele disse mamã. Fiquei tão feliz!” aplaudiu sonoramente. Segundo a percepção de Christopher, a garota pareceu muito alegre e expressiva.
Dá um beijo nele por mim. Quanto às coisas que precisa, mandarei comprar e entregar aí”.
“Ok. Te amo” disse ela naturalmente.
Ele pareceu embaraçado, pois pausou um tempo antes de responder. “Er, eu também te amo”.
E desligaram.
‒ Uh, que romântico ‒ Christopher zombou com um ofego sufocado, lembrando-se de Aleksey anos atrás com Christine. ‒ Bom, Ethan, ótimo trabalho. Tudo indica que as garotas sabem do esquema. Pelo jeito, além de garotas do Aleksey, elas ajudam a manipular e embalar as drogas ‒ sentenciou enquanto andava pela sala sugerindo tranquilidade que não dispunha. ‒ Precisamos de uma estratégia para investigar lá dentro ‒ ponderou reflexivo.
‒ A Justiça não autorizará ‒ Ethan lembrou, referindo-se a todas as dificuldades de investigar esse caso. As provas obtidas vinham recheadas de labirintos. Nada provava a participação de Aleksey, que aparecia e sumia de cenas incriminadoras, isentando-se sempre de qualquer acusação. ‒ No entanto, alguém da agência poderia se infiltrar no mundo delas para ganhar confiança ‒ sugeriu distraidamente enquanto estudava suas anotações.
‒ Como? ‒ Christopher franziu o cenho curioso e se virou para o colega, instigando-o com o olhar a elaborar.
‒ Se algum agente se convertesse em amigo delas, por exemplo ‒ indicou tranquilo.
Christopher estudou Ethan detidamente, tempo em que conjecturou a possibilidade de seus agentes novatos passarem-se por adolescentes. Seria fácil. Matthew Stanton tinha pouco mais de vinte e dois anos. Ethan Uchida tinha vinte e três e, por vestir-se com jeans e tênis All Star, aparentava ter menos.
‒ Ok. Amanhã você e Stanton na Sky para se infiltrarem ‒ Christopher escalou. ‒ Eu irei para dar cobertura.
‒ Quê...? Mas, chefe... ‒ Ethan alarmou-se. Seu trabalho costumava ser intelectual, não ação. Tinha funções específicas de especialista em redes, além de altas habilidades em desvendar intrincadas linguagens de comunicação. Todavia, como agente da Narcóticos, seu trabalho mais importante foi ficar em salas de varreduras de escutas.
‒ Sem mas ‒ sentenciou Christopher. ‒ A ideia foi sua ‒ sentou-se sobre a mesa com olhar sombrio. ‒ Será somente aproximação e conversa casual ‒ esclareceu diligentemente. Ethan era o mais confiável dos agentes e talvez o único que Christopher se relacionava extra corporação. Por ser filho de uma antiga namorada de seu pai, o juiz Thomas Adams, da Suprema Corte da Califórnia, conheciam-se há algum tempo. ‒ Amanhã use lentes de contato e roupas modernas ‒ o chefe encerrou.
Quinta-feira, sentado atrás de sua mesa, o chefe da unidade traçava planos metodicamente sobre a disposição de suas equipes nas diversas investigações do fim de semana enquanto ouvia repetidamente a gravação da conversa de Aleksey, ocasião em que tentava decifrar prováveis mensagens subliminares. Sua atividade foi interrompida pela presença da psicóloga da agência Rachel Freeman, filha do Coordenador-Geral da DEA da Califórnia, Jason Freeman.
Chris, precisamos falar ‒ exigiu decidida.
‒ Estou bem ocupado agora. ‒ dispensou-a distraído, sem tirar os olhos do papel.
‒ O assunto é nós ‒ insistiu.
Ele levantou o olhar e a estudou. Ruiva, alta, magra, olhos cor de mel, cabelo repicado nos ombros. Bonita e sofisticada, porém não o fazia perder a indiferença natural que o mantinha distante e a salvo de relacionamentos.
‒ Não posso dar o que você exige ‒ dispôs sem preâmbulos. ‒ Deixei claro desde o início.
‒ Eu me apaixonei ‒ ela inclinou-se e pôs as duas mãos na mesa. ‒ Acredito que posso te ensinar a amar ‒ persistiu carinhosa. ‒ Há algo errado comigo?
‒ A questão não é você ‒ explicou incômodo. Evitava relacionar-se com pessoas conhecidas justamente para não ter o inconveniente de justificar seus atos ao decidir dar um basta. Conhecia Rachel desde adolescente. Seus pais eram amigos. E imaginou que, por Rachel ser mais velha oito anos e, supostamente, mais madura, não teria cobranças. No entanto, a história repetia-se. Depois de meses de cômodas saídas para satisfação física, aparecia a cobrança inoportuna sob a alegação de amor.
Ela tocou o seu rosto e o acariciou.
‒ Só precisamos de uma chance. Eu te quero há anos.
Maldição. Não queria ouvir declarações. Pensou que poderia protelar em evasivas até que ela percebesse seu desinteresse. Mas não queria vê-la sofrer mais expectativas. Durante um tempo, ela foi boa companhia, discreta, conveniente. Depois, mudou. Tornou-se inoportuna. Então a relação ficou maçante e virou obrigação. Precisava dar um fim antes que a magoasse.
‒ Não posso mais, Rachel ‒ sentenciou resolvido.
Ela levou a palma da mão dele à boca e beijou-a. Ele não podia ser um homem completo, ela pensou. Não com a amargura que vivia, mantendo sempre distância emocional de tudo. 
‒ Este não é o fim para nós. Eu não vou desistir de você ‒ declarou antes de deixá-lo.
**
Rebecca vestia uma saia de pregas preta com costuras rosa, camisa de manga japonesa branca de botões rosa e uma bota cano baixo rosa envelhecido. Carolyn usava vestido curto vermelho, tomara-que-caia e uma bota envernizada da mesma cor, na altura do joelho. Ambas usavam apliques de cabelos cacheados e longos com o intuito de dissimular suas identidades. Os cachos artificiais louros de Rebecca davam-lhe a aparência adulta.
Carolyn retocou mais uma vez o batom vermelho no espelho do carro e balançou de um lado para o outro seu rabo-de-cavalo ruivo. Estavam excitadas por finalmente conseguirem sair como adolescentes normais. Quanto mais o motorista se aproximava da Rua Spring, mais se agitavam.
‒ Roney, você vai nos dar um tempinho para paquerarmos, não vai? ‒ Carolyn perguntou. Roney não respondeu, mas olhou-a hostil pelo retrovisor. Rebecca sorriu prevendo uma discussão. ‒ Merda! Quero liberdade! ‒ Carolyn resmungou.
‒ Carol! Garotas não falam esse nome! ‒ Rebecca repreendeu com um belisco brincalhão em sua cintura.
Carolyn pôs no rosto uma máscara provocadora e mordeu os lábios, encarando Roney pelo espelho. ‒ Você até poderia ser o prato do meu dia, se fosse legal ‒ espetou zombeteira.
‒ Quem disse que eu quero ser o prato do seu dia? ‒ Roney retrucou.
‒ Você não me deixou completar ‒ umedeceu o lábio superior, num epítome de sedução. ‒ Poderia ser o prato do dia, mas é velho demais para mim. Qual a sua idade? 30? 35? ‒ zombou, fingindo calcular. ‒ O único homem mais velho que eu pegaria de boa é Aleksey, porque ele tem a idade que tem, mas é um lindo, jovem. Já você é um velho, feio, Matusalém. E quem gosta de velho é museu! ‒ provocou, sorrindo afetada.
Roney não era feio. Pelo contrário. Algumas mulheres diriam que ele era bonito e sexy. Louro, alto, forte, com cabeça raspada, uma tatuagem dos fuzileiros navais no braço, porém muito fechado e sério.
Ele a encarou, aborrecido.
‒ Você é uma fedelha que mal saiu das fraldas!
‒ Você é um velho feio! ‒ repetiu teimosamente, cruzou os braços e olhou para as ruas pela janela.
‒ Carolyn, eu tenho 29 anos!
‒ É um velho. Idoso. Cheira a mofo! ‒ provocou. Roney girou o volante, puxou o freio de mão e freou bruscamente. Carolyn se assustou com o drifting, mas não se intimidou. ‒ Tão velho que nenhuma gatinha como nós olharia para você ‒ rematou cheia de birra.
‒ Carolyn e Rebecca, desçam! Meia-noite e cinquenta, eu pego vocês exatamente aqui! ‒ ordenou impaciente. ‒ Não importa quem vão pegar. Estejam aqui esse horário e ponto.
Carolyn desceu empolgada com o resultado da provocação. Rebecca desceu preocupada com o que aconteceria a seguir. Ela sempre tinha que ser o lado mais sensato.
‒ E Alek, Roney? ‒ inclinou-se sobre a porta. ‒ Se ele souber que não ficou conosco, vai te encher.
‒ Vocês não falam. Eu não falo. Essa pirralha me cansa.
‒ Ok ‒ Rebecca sorriu. ‒ Até mais tarde.
Elas caminharam de mãos dadas até a porta lateral da casa de festas com cartões Vips em mãos. O barulho no local era ensurdecedor. Fascinadas, elas gritaram e dançaram ao som de David Guetta, as mãos para cima. Sem que percebessem, eram observadas, desde que entraram no recinto, por dois agentes.
O terceiro homem, Agente Especial Christopher Adams, encontrava-se no mezanino com postura de fria civilidade e uma lata de Coca-Cola na mão, examinando minuciosamente o local. Vestia-se diferente da normal austeridade diária, jeans preto, camisa preta dobrada em três quartos e dois botões abertos, exalando seriedade e charme. Foram inúmeros declínios de assédios só naquela noite. Embora seu objetivo fosse vistoriar a efetividade da operação, era exigente com o nível intelectual de suas companhias. Não sairia em busca de companhia num lugar como aquele. 
A presença dos seus subordinados próximos às garotas no andar de baixo, chamou-lhe atenção. Elas não ocultavam a pouca idade que tinham. Rostos jovens, traços semelhantes no perfil do nariz afilado e queixo. Corpos esbeltos e roupas teens. Poderiam ser irmãs, Christopher ponderou, surpreso com a beleza e juventude delas.
A ruiva sorriu receptiva aos rapazes, a loura os ignorou e continuou dançando. Christopher bebeu mais um gole de Coca e viu a ruiva puxar o braço da loura e reclamar. A resposta da loura foi um esgar censurador, a seguir a ruiva foi deixada só. Não seria fácil, pensou Christopher. Ficou claro na escuta telefônica a lealdade e o amor por Aleksey. Não deixariam estranhos se aproximarem.
Rebecca seguiu para o banheiro irritada com Carol. Não gostava que armassem para ela, principalmente ficar com um garoto que não conhecia quando já era comprometida. Se Carol queria ficar com o oriental, que ficasse. Ela, não. Saíram para dançar, não para procurar garotos. Se Aleksey soubesse, não confiaria mais nelas.
Christopher observou a loura voluntariosa e notou que um de seus agentes a seguiu. Preocupado, desceu as escadas rapidamente atrás de Matthew rumo ao corredor do banheiro feminino. Encontrou-o parado, tranquilo, em frente à porta onde dezenas de garotas transitavam.
‒ O que diabos você está fazendo aqui? ‒ questionou o chefe, pondo-se ao seu lado.
‒ Estou esperando a ninfeta ‒ o rapaz explicou. ‒ Ethan já está passando a lábia na outra ‒ adicionou, zombeteiro.
‒ Eu vi um homem as observando. Devem ter homens de Mattel por todos os lados ‒ Christopher alertou e tocou o seu braço para tirá-lo de lá. Seu intento foi interrompido pela voz que soou próxima.
‒ Você veio atrás de mim ‒ saiu como acusação. Matthew ficou imóvel. Christopher reconheceu a voz rouca que ouviu repetidas vezes desde o dia anterior. Automaticamente afrouxou o aperto e disfarçou, o olhar num quadro na parede. ‒ Não gosto de me sentir perseguida ‒ a garota comentou naturalmente e deu um meio sorriso.
Ela não notou Christopher, mas fitou Matthew curiosa.
‒ Er... Eu queria dar um espaço para meu colega e sua amiga ‒ Matthew improvisou sem jeito. ‒ E, como você veio por esses lados, pensei que podia te ver por aqui. Eu queria te conhecer. Você é muito gata ‒ adicionou mais seguro. Christopher rolou os olhos ao ouvir a cantada clichê.
‒ A primeira coisa que precisa saber é que só vamos conversar ‒ a garota enfatizou decidida. ‒ Não bebo nada que me oferecem em festas, não fumo e não vou sair daqui com você para lugar algum. Se não estiver interessado em só conversar, encerramos aqui ‒ ressaltou direta, o que fez Christopher franzir o cenho admirado. Matthew abriu a boca sem palavras. Ela continuou. ‒ Qual sua idade? ‒ olhou-o da cabeça aos pés.
‒ Dezoito ‒ Matthew mentiu.
‒ Ah, legal. Você já se formou no colegial?
‒ Sim.
‒ Onde você estudou?
Christopher ouviu o interrogatório perplexo. Matthew parecia intimidado.
‒ Em Nevada.
‒ Vem muito a estas festas?
‒ Er... Sim ‒ respondeu desconfortável por ter o chefe tão próximo avaliando-o em sua primeira vez num caso. Christopher, às costas de Rebecca, fez um gesto com a mão para que Matthew elaborasse e ganhasse a confiança dela. Matthew atendeu. ‒ E você? Seus pais deixam você vir mesmo sendo tão nova?
Ela sorriu e relaxou um pouco. ‒ Não sou tão nova assim ‒ gracejou. ‒ E esta é a primeira vez que eu venho. Um amigo da família nos trouxe sob seus cuidados ‒ fez um gesto de aspas no ar.
‒ Você está na escola secundária, ? ‒ Matthew supôs, imaginando que ela tivesse entre dezesseis e dezoito anos.
Ela baixou a cabeça relutante em responder.
‒ Não. Estou atrasada dois anos. Ainda estou no último ano do Junior ‒ explicou baixo.
Christopher olhou-a de canto. Ela parecia chateada por ainda não cursar o secundário, deduziu. Aleksey, além de usar libidinosamente suas garotas, interferia em seus estudos. Maldito!
Avaliou-a abertamente. Espertos olhos verdes enfeitados por longos cílios chamaram sua atenção, numa maquiagem alegre e delicada. Os cabelos longos repletos de cachos formados no babyliss os fez, involuntariamente, associar aos cabelos de Christine. Um perfume doce, mas não enjoativo, pairava no ar, tutti-frutti e algodão doce. O bizarro é que era a mesma fragrância que Christine usava. Será que Aleksey faz com que ela use o mesmo perfume de Christine? Isso é doentio!
Ainda inspecionando-a, lembrou-se de quem se tratava: uma jovem com sua inocência usurpada. Ela não parecia tão magra como quando a olhou do andar de cima. Era um rosto adolescente no corpo de uma mulher de um metro e setenta e cinco de altura, aproximadamente.
Por que atrasou dois anos? ‒ Matthew perguntou, interrompendo sua inspeção. ‒ Reprovou?
‒ Em parte. Um ano eu reprovei por falta, o outro eu parei no início do ano ‒ explicou. Conversaram ainda alguns minutos amistosamente, então ela sorriu. ‒ Gostei de conversar com você ‒ encerrou. ‒ Até mais ‒ dispensou-o naturalmente. O chefe fez um gesto para que Matthew a seguisse.
‒ Não vai nem pegar meu telefone? ‒ questionou matreiro e segurou o ombro dela de um jeito camarada. Antes de responder, ela viu a figura de Roney os observando a alguns metros. Baixou o olhar para seu braço, alertando que Matthew avançou limites.
‒ Não. Eu não vou te ligar ‒ avisou seguramente.
O olhar de Christopher encontrou-se ao dela, que segurou o olhar curiosamente nele, depois fitou ansiosa o fim do corredor.
‒ Eu fiz algo errado? ‒ Matthew perguntou confuso. Christopher acompanhou o olhar dela, viu Roney e disfarçou um gesto a Matthew para que ele se afastasse.
‒ Não. Tchau. ‒ Ela torceu os lábios nervosa, depois caminhou apressadamente para o lugar onde a ruiva estava.






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